sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Re-composto

Apenas tenho o ímpeto acuado por sentimento
Num mundo de impulsos e premonições perdidas.
Por tal, nenhuma atroz rotina me pára.
Nenhuma peça do destino ingrato me sufoca.
Porque meu ponto forte
É o fio implacável entre o amor causado
E a cruenta decepção que me põe sofrido.
É no repetido furar da face na transfiguração da dor sem freio
Que me volto recomposto.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008


Retorno
Viagem se faz por espírito.
Meu corpo era apenas uma testemunha sentimental de tal jornada.
Fui débil em busca do reencontro de olhar.
Nalgum lugar descobri como quem mente impune
Que a física e temporal distância remove o amor desnudo
E o sobrepõe disfarce.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007


Letras de Dor
Desisto de construir qualquer perfil de amor festivo.
Eu era teu precariamente.
De resto nada mais sei.
E, com efeito, me diminuo
ante tua dor que é maior e choras firme.
O punhal da vida incerta me crava as carnes,
se acompanha comigo
e sempre escrevo a saudade a sangue.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007


Menino
Sou eterno menino com os olhos voltados para as delicadezas sórdidas, comovido pelo amor de toda ordem e reverente ao temor geral com relação ao mundo. Porque, profundamente atingido pela vida, procuro em algum canto o que já fui saudosamente, perplexo pelo que me coube ser e mais freneticamente angustiado em como me lançarei abismo futuro.

terça-feira, 6 de novembro de 2007



Predestinos
Sempre tenho no caos a segurança precisa
Vejo fugir amores,
Riquezas de tantas matérias
E certezas espirituais
O passado imprescindivelmente descartável
Hodierno é vaga de horas rotas
O futuro: favas contadas de bomba inócua
Não poupo minha predestinação para o ermo
Nem combato o conseqüente dos vícios
Minha lógica é furtiva
Cadafalso de vida que meu verbo não dirige nada
E de minhas retinas que digerem tudo

domingo, 28 de outubro de 2007


Morte

Indagai onírica senhora do tridente
As horas certas para tantas maquilagens
Para ouro de brincos e pingentes

Entretanto, ao despertar fito a clarabóia.

E não, não convém aborrecer-me
Eu que logo serei carne mofada e tétrica no ataúde
Não que esteja morbo ou suicida
Apenas me acomete o mal de existir
E no estampido da existência, fixo-me na escuridão eterna.

Entretanto, ao despertar fito a clarabóia
E a luminosidade expressa o dia em auroras

Sem entender o breve sofrimento
Um dia a compridíssima mão me ceifará
E se a indelével parte ainda segue aos apelos da paixão
E todo o meu apego é efêmero
Tudo o que é bom na vida é assim

Entretanto, ao despertar fito a clarabóia.
E a luminosidade expressa o dia em auroras

Ao alcance dos lábios nostálgicos
Um beijo e uma botija de vinho
E o prodigioso luto se aproxima

Entretanto, ao despertar fito a clarabóia.
É a obscuridade, o começo do jamais
É hora de, tendo termo, chegar ao infinito
Graças que é hora de nunca mais.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007



Vazio
Deixaste esse vazio difícil e quase inexplicável. Como se a distância fosse sempre presença incomoda e as medidas da ausência algo só perceptível no estio de afeto, que ressoa como um uivo na mesma hora dos gestos de alcova. No fundo é um momento apenas. Mas, por tudo, é como se a saudade fosse transbordando vida a fora.